domingo, 26 de outubro de 2008

O dia em que cheguei em Trancoso

Era quinta-feira, 12 de janeiro de 1998, quando embarquei em um ônibus da Viação São Geraldo, de São Paulo, mais especificamente Rodoviária do Tietê, para a desconhecida por mim, Porto Seguro, chamada Terra Mater Brasileira.
Tudo certo para a minha segunda tentativa de embarque, (eu fora assaltado em 24 de dezembro de 2007 bem na porta da rodoviária, tentando fazer a mesma viagem, e não deu pra embarcar), mas desta vez era diferente, peguei o dinheiro para passar os 15 dias de férias e guardei , muquiado na bolsa com as roupas, junto com a barraca no maleiro, os R$ 470,00, o suficiente pras passagens, camping e necessidades básicas: preservativos, bebidas e ingressos para as raves. Comigo na muchila apenas R$ 170,00, assim divididos R$ 65,00 para passagem de ida, R$ 70,00 para passagem de volta (aliás nunca entendi direito porque o trajeto sendo o mesmo tem diferença de preços), e o restante para despesas de almoço, café, e guloseimas durante as diversas paradas. E na carteira R$ 20,00 caso alguém viesse tentar me roubar de novo.
Embarquei rumo ao desconhecido, era a primeira vez que viajava completamente só, isso aos 29 anos de idade, (pensando nesse detalhe sinto-me um idiota, mas como disse o saudoso RenatoRusso, "... e aos vinte e nove, com o retorno de Saturno, decidi começar a vivier..." ), bom continuando, a viagem foi tranquilíssima, tanto que quase não desci do ônibus nas paradas, pois era como se estivesse em estado de ibernação, (é com ou sem H? Sei lá, depois eu olho e corrijo se lembrar), as 26 horas de viagem foram como um lindo e maravilhoso sonho, até eu descer do ônibus e constatar que minha barraca e bolsa de roupas, (lebram? Lá onde eu muquiei o dinheiro da estadia?), estraviaram numa cidade visinha a duas horas e meia de Porto Seguro, uma das paradas em que estava hibernando.( é com H mesmo, já verifiquei no Dic. Michaelis do "coputer").
Entre brigas e discussões, fui informado de que, se fosse encontrada, a mala não seria enviada para Porto Seguro, ela retornaria pra São Paulo, mais exatamente no meu endereço em São Bernardo do Campo, pois era o endereço que constava nas fichas ao lado da bolsa e da barraca.
Decidi então seguir para Trancoso, não fazia idéia de onde ficava, só sabia que tinha que pegar um ônibus da Rodoviária até a Balsa, e do outro lado pegar um ônibus para Trancoso. Entre o horário de chegada em Porto Seguro, 17:00h e o de travessia da Balsa 19:00, não havia perguntado a ninguém sobre a distância de Porto Seguro a Trancoso, e muito menos sobre os horários do ônibus para Trancoso. Foi uma simpatica senhora que vendo minha cara de turista perdido perguntou-me:
- Tá indo pro Arraial d'Ajuda?
- Não, vou pra Trancoso! - respondi tentando ser simpático.
- Mas não tem mais condução pra lá nesse horário. - disse-me ela com ar preocupado.
- Não tem problema, eu vou andando. - respondi tentando não entrar em pânico por estar longe do meu destino final e sem dinheiro. Porém para acabar com minhas esperanças, ela finalizou quaisquer chances de saída:
- Você vai andar 22 quilómetros, de noite, numa estrada de terra que passa pelo meio da mata? É melhor ficar no Arraial.
Graças a Deus, aquela sexta-feira ainda guardava boas surpresas, mas isso eu continuo outro dia! Tá na hora de fazer naninha, né meu amor? Desculpem, falava com minha filha de dois anos, mas ela vai aparecer na história só depois. Boa Noite!